Por que meu cão não me obedece?

Quando falamos de ter um relacionamento com nossos cães, falamos de uma via de mão dupla, ou seja, o que cada um dos lados faz em prol desse relacionamento. O que eu faço e o que o cão faz.

Porém, quando se trata de conviver com os cães em nossas casas, existem muitos fatores que influenciam os comportamentos dos cães e que, a menos que sejam ensinados, não são escolhas naturais para eles. Nesse caso, o que eu faço influencia diretamente o comportamento do meu cão, ou seja, o comportamento dele normalmente é um reflexo das minhas atitudes e escolhas.

Quando queremos que os cães aprendam algo, além de precisarmos empreender alguma energia em ensinar, precisamos fazer isso de uma forma que ele entenda. Se você vem tentando educar seu cão sem sucesso, a seguir listarei algumas situações bastante comuns e que, provavelmente, estejam te impedindo de criar uma comunicação eficaz com seu amigão.

  • Colocar atenção no mau comportamento

Você já ouviu a frase: “Aquilo que alimentamos cresce”? Pois é, se você direcionar seu foco apenas para os comportamentos ruins, eles ficarão cada vez mais evidentes. Ao ponto em que, se seu foco for para os bons comportamentos, a tendência é que eles comecem a ocorrer com mais frequência.

Ficar punindo comportamentos indesejados não mostra ao cão o que você espera que ele faça, e pior, quando você faz isso de forma inconsistente, injusta ou no tempo errado você pode estar arruinando o seu relacionamento com ele, provocando confusão mental e quebra de confiança. Melhor mesmo é identificar qual é o comportamento que te desagrada e fazer a si mesmo a seguinte pergunta: “O que eu quero que meu cão faça no lugar deste comportamento?”. Tendo encontrado a resposta, então você precisa identificar o que precisa ser feito para mostrar a ele o que você quer e reforçar muito esse comportamento com atenção, carinho, petiscos e brincadeiras.

Vou te dar um exemplo prático! Digamos que você está aprendendo um ritmo novo numa aula de dança e não está executando um movimento da forma correta. O professor não vai dizer que você é burro, puxar você ou gritar com você, ele vai te apontar qual é o movimento e mostrar exatamente o que você precisa fazer para conseguir executá-lo corretamente, ou seja, ele vai te dar instruções e não broncas. Com os cães também funciona assim, porém, a forma de mostrar é um pouco diferente, não basta falar, você precisa criar as condições para que ele acerte e então mostrar a ele que acertou.

  • Esquecer de reforçar o bom comportamento

Quando o foco está nos erros, é muito comum as pessoas valorizarem demais quando o cão demonstra um comportamento inadequado e ignorarem por completo os comportamentos desejados. Quando o cão rói móveis ou interage com algum objeto “proibido”, por exemplo, as  pessoas rapidamente dão bronca ou se empenham em tirar o objeto da posse do cão. Já quando ele brinca com os seus brinquedos ou escolhe deitar aos pés da família calmamente enquanto assistem TV, as pessoas preferem deixar o cão quieto com medo de estragar o momento de calmaria. Agindo assim, perde-se a valiosa oportunidade de mostrar ao cão exatamente o que se espera dele e de aumentar a frequência com que ele demonstra esses mesmos comportamentos.

  • Esperar que o cão saiba tudo ou aprenda sozinho

Isso é algo muito comum principalmente com filhotes recém-chegados à família e com treinos de educação sanitária. Não é raro encontrarmos famílias que acreditam piamente que, ao comprarem bons brinquedos, tapete higiênico e caminha o cão naturalmente saberá que são brinquedos para brincar, tapete para o “banheiro” e caminha para dormir, só se esquecem de que esses são artigos inventados por humanos e que, na cabeça do cachorro, até que alguém ensine de fato o que é cada coisa esses objetos não tem significado algum. O cão não nasce sabendo que fazer xixi no tapete persa da sala é um crime! Na realidade, para ele pode parecer uma excelente opção, já que o tapete absorve muito bem o xixi e ele não vai precisar sujar as patas e nem ficar pisando na própria sujeira.

Se você quer que seu cão brinque com os brinquedos, então brinque muito com ele e esses brinquedos. Mostre a ele que esses são itens muito desejados por todos da casa e que é o máximo ele estar com esses itens. Se você quer que ele faça as necessidades num determinado local ou superfície, leve-o com frequência a esse local e mostre  a ele onde é o banheiro na sua casa. Não existe mágica.

  • Não querer investir na consultoria de um profissional ou achar que vai conseguir fazer tudo sozinho

O fato é que um profissional estuda muito e tem experiência com inúmeras situações todos os dias. Ele poderá poupar muito esforço e encurtar o caminho até o tão desejado resultado que você quer obter. Um profissional bem atualizado, que trabalhe com metodologias embasadas em ciência, vai poder te orientar e dizer exatamente o que funciona e o que não funciona para a sua realidade, rotina e de acordo com o perfil comportamental do seu cão. É claro que, apenas consultar um profissional sem seguir as orientações é o mesmo que ir ao médico e não fazer o tratamento, não surte efeito algum.

  • Deixar para buscar ajuda quando algo muito grave aconteceu ou quando não consegue mais conviver com o cão

Ao contrário do que muitas pessoas ainda pensam, a educação canina deve ser visando a prevenção e não a remediação de problemas comportamentais e de relacionamento.

Quando você educa para um bom convívio familiar o relacionamento entre a família e o cão é completamente diferente e a tendência com o passar dos anos é que ambas as partes se entendam e comuniquem cada vez melhor. A confiança e o vínculo afetivo que se estabelece também são muito maiores.

Ao deixar que o cão aprenda vários comportamentos inadequados ou esperar que um problema comportamental se agrave para só então buscar auxílio a pessoa acaba sendo negligente e, quando se dá conta, o relacionamento com o cão está deteriorado. As frustrações e o estresse já tomaram conta da situação e o nível de tolerância de ambas as partes já quase não existe mais. Reconstruir a confiança perdida pode ser bem mais demorado e trabalhoso do que parece, assim como, trabalhar sob estresse também pode acabar sendo bastante frustrante. Por esse motivo, o melhor mesmo é educar para prevenir situações indesejadas no futuro.